Na evolução dos robôs, a ampliação do mercado de trabalho

Por Gustavo Brigatto | De São Paulo

A inteligência artificial e o uso intensivo de robôs têm tirado o sono de muita gente pela ameaça de aumento do desemprego principalmente na indústria ao redor do mundo. Mas a aplicação de novas tecnologias às linhas de produção pode ser a única forma de se conseguir ganhos de produtividade nos próximos 50 anos.

Na evolução dos robôs, a ampliação do mercado de trabalho“Nos últimos 50 anos a economia cresceu em média 3,6% ao ano. Mas metade disso veio da adição de pessoas à força de trabalho. Com a sociedade ficando mais velha e a China tendo atingido seu auge, nas próximas décadas o crescimento fica perto de zero”, disse Roland Busch, principal executivo de tecnologia e inovação da gigante alemã Siemens. “Então, se quisermos manter o crescimento e tirar mais pessoas da pobreza, precisamos compensar, com tecnologia essa expansão que ficou faltando.”

Assim como outros grandes nomes da chamada velha economia, a Siemens tem investido pesado para adaptar seu portfólio à economia digital, em que inteligência artificial, internet das coisas e outras tecnologias são incorporadas a processos tradicionais para aprimorá-los, reduzir custos e melhorar os resultados. Sob o comando de Busch está um exército de 40 mil pessoas trabalhando em pesquisa e desenvolvimento (pouco mais de 10% dos 372 mil funcionários da Siemens) com um orçamento de EUR 5,2 bilhões.

Para Busch, as novas tecnologias aplicadas à indústria também podem ser uma oportunidade para que países atraiam a instalação de novas fábricas. “Se você tem uma unidade com poucas pessoas olhando para robôs, não importa mais quanto você paga para elas. Isso pode mudar completamente a forma como a indústria funciona atualmente”, disse.

Um exemplo disso é a conterrânea da Siemens, a fabricante de material esportivo Adidas. A marca inaugurou neste ano sua primeira fábrica em solo alemão depois de mais de duas décadas produzindo apenas na Ásia. Instalada na região Sul do país, a Speedfactory, como foi batizada, tem uma linha de produção de tênis composta quase integralmente por robôs. A ideia é acelerar a produção, permitir o uso novos materiais e tecnologias, como a impressão 3D, e abrir caminho para a personalização dos modelos. Os trabalhadores só entram em cena para dar arremates finais nos pares.

Isso faz com que o número de empregados caia de mil normalmente empregados em uma unidade semelhante na China, no Vietnã, ou na Indonésia, para menos de 200. Segundo John-Paul O’Meara, vice-presidente de estratégica da marca, a meta é produzir 500 mil pares na unidade alemã. Trata-se de uma fração dos mais de 300 milhões que a companhia coloca na rua anualmente. Mas o volume tende a aumentar na medida em que novas fábricas vão sendo construídas – uma nova unidade já está sendo montada nos EUA.

Um ponto importante nesse novo cenário é a capacitação da mão de obra: treinar as pessoas que hoje operam máquinas para saber programar robôs e também preparar a sociedade para ser mais voltada a serviços. “É preciso investir em treinamento, em mudar os currículos, na forma como educamos as pessoas, investir em treinamento vocacional. É algo que temos que fazer”, disse Busch.

O executivo reforça o coro dos que acreditam que se empregos podem ser perdidos no caminho, novas oportunidades serão geradas. “Se tivéssemos nos preocupado com o emprego daqueles que cuidavam dos cavalos e guiavam as carruagens no passado, nós nunca teríamos carros. E pense agora nos avanços que os carros autônomos vão trazer”, disse.

Segundo a empresa de pesquisa Gartner, em 2020, o uso de sistemas de inteligência artificial vai eliminar 1,8 milhão de empregos, mas criará outros 2,3 milhões. Em 2025, o saldo positivo será multiplicado por quatro, chegando a 2 milhões a mais que as posições perdidas, segundo a empresa.

O número de empregos afetados deverá variar por setor. Até 2019, a área de saúde, o setor público e de educação verão uma demanda crescente por empregados, enquanto a área de manufatura será mais afetada, de acordo com as projeções.

“A inteligência artificial vai aumentar a produtividade em muitas funções, eliminando posições de nível baixo e médio, mas também criando milhões de novas vagas de alta qualificação, de gerenciamento e até mesmo para pessoas com conhecimento não tão aprofundado”, disse Svetiana Sicular, vice-presidente de pesquisa do Gartner. Segundo ela, as visões pessimistas sobre a perda de empregos confundem inteligência artificial com automação e ofuscam o principal benefício da tecnologia, que é a combinação de inteligências, em que o homem complementa a máquina e vice-versa. A isso se denomina inteligência aumentada.

A estimativa do Gartner é que em 2021 a inteligência aumentada vá gerar US$ 2,9 trilhões em valor adicional às empresas e recupere 6,2 bilhões de horas de produtividade no trabalho.

Disponível em Valor: http://www.valor.com.br/empresas/5237305/na-evolucao-dos-robos-ampliacao-do-mercado-de-trabalho

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